bobagem 557: signos novos estruturais
Décio Pignatari em: Cultura Pós-Nacionalista, RJ, Imago, 1998, p. 64.
"A maior parte dos artistas contribui com inovações periféricas, não-antagônicas em relação a uma criação anterior. Os grandes criadores — os inventores, de Ezra Pound — contribuem com signos novos estruturais antagônicos em relação ao sistema anterior que não os pode absorver sem destruírem-se. Por isso os combatem. Um signo novo estrutural tem função crítica e metalingüística: ele ameaça o sistema de valores preexistente apontando para a possibilidade de um novo sistema. Em termos de teoria da informação, ele se apresenta como ruído 'ininteligível'. O signo novo estrutural é o signo revolucionário (Mallarmé e Joyce; Webern e Cage; Mondrian e Marcel Duchamp; Griffith, Welles, Eisenstein, Resnais, Godard). As informações de primeiro grau dizem respeito à estrutura das coisas — mesmo porque a estrutura das coisas é sua mensagem (N. Wiener)."
Escrito por Paulo de Toledo às 02:40:26 PM
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bobagem 556: coleção "complexo de vira-lata"

Escrito por Paulo de Toledo às 09:56:12 AM
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bobagem 555: papo com o a. cicero
Lá no blog do Antonio Cicero (http://antoniocicero.blogspot.com/) rolou um papo bem legal sobre poesia, este motivado pelo artigo do cara que saiu na Folha e que tb está no blog. Transcrevo, abaixo, os meus pitacos e as respostas sempre inteligentes do Cicero. Boa leitura!
Paulo de Toledo disse...
Antonio, tudo bem? Desde que eu li essas suas idéias no seu belíssimo livro, o que me vem à mente é a seguinte pergunta: Sim, agora todas as "formas poéticas" são possíveis, mas algumas delas não teriam perdido a capacidade de produzir "informação nova"? Tentando me explicar: essas "formas poéticas", após tantos e tantos anos (às vezes, séculos) de utilização por tão variados poetas e depois de serem alvo de tantos processos de metalinguagem crítica, elas não teriam acumulado uma quantidade de redundância que tiraria delas boa parte da capacidade de surprender o leitor (falo de um leitor afeito à leitura da tradição poética)? Abraços
Caro Paulo,
O que não se pode é estabelecer regras que excluam forma alguma. Você pergunta se não acho que, depois de muitos anos (às vezes, séculos) de utilização, uma forma não se tornaria incapaz de surpreender o leitor. Uma forma não ficaria velha depois de, digamos, trezentos anos de utilização? Acontece que uns trezentos anos depois da invenção do soneto, por exemplo, Shakespeare e Camões escreveram os deles: que se encontram entre os maiores poemas jamais escritos. Ponhamos mais trezentos anos nessa história: seiscentos anos não serão demasiados para qualquer forma? Pois seiscentos anos depois de criado o soneto, Baudelaire escreveu os dele. E não ficam atrás de nenhum dos que haviam sido escritos antes dele: nem são menos novos do que os de Petrarca. E depois de Baudelaire, Mallarmé... Mas depois da vanguarda, ainda dava para escrever sonetos interessantes? Rilke provou que sim (e o próprio Augusto de Campos, que o traduziu, pode confirmar esse fato). Mas, depois de Rilke? Basta ler as obras-primas que são os sonetos de Borges, em “Los conjurados”. A partir da década de 1950, e mais ainda na de 1960, aumentaram as vozes que declaravam que o soneto se tornara obsoleto. Indiferente a elas – felizmente – Drummond escreveu vários sonetos que se contam entre os maiores poemas da língua portuguesa. Leia-se, por exemplo, “Destruição”, de 1962. Mas depois disso, ainda hoje, 800 anos depois da sua invenção? Leiam-se os poemas de Paulo Henriques Britto e os de Nelson Ascher. Em suma, não dá para estabelecer regras. É preciso considerar caso por caso. É que absolutamente tudo, num poema, é forma: e tudo é conteúdo. O que chamamos de “forma fixa” é uma forma mais ou menos externa, no fundo uma forma secundária, que se repete. Mas as palavras também são formas que se repetem. Entre formas que se repetem e formas que não se repetem é que se criam os todos os poemas, inclusive os que se consideram experimentais. E como não há fórmula nem receita para criá-los, todo poema bom – inclusive o soneto bom – é, no fundo, experimental.
Paulo de Toledo disse...
Caro Antonio, é lógico que não se deve "estabelecer regras" para a feitura de poemas. Mas, vamos fazer o seguinte raciocínio: um leitor afeito à leitura de sonetos (shakespearianos, camonianos, drummondianos etc. etc.) ao ler outro soneto, seja ele de quem for, já não teria, em sua mente, um conjunto de expectativas (mesmo que inconscientes) que o levariam a gostar ou não desse soneto, expectativas essas produzidas pelo que há de redundante na "forma soneto"? Obviamente, há muito mais nessa forma poética do que a sua "forma", mas esta não funcionaria como um elemento de "familiarização", o que daria ao soneto uma prévia carga de redundância? Abraços.
Caro Paulo,
Acho que quem vai escrever um soneto leva em conta o fato de que se trata de uma forma tradicional e muito usada.
Para o leitor, entretanto, o que interessa é se o soneto é bom. Quase todos os sonetos são ruins. Alguns pouquíssimos são bons. Já fui jurado de um concurso de poemas e li dezenas de péssimos sonetos; mas também, na mesma ocasião, li centenas de poemas ruins de todos os tipos. Jamais gostei de soneto nenhum simplesmente porque fosse um soneto. Ao contrário, como já li sonetos que eram obras-primas, exijo muito de qualquer soneto que leia. Um soneto bom é uma raridade, mas ainda hoje pode ser feito: e pode ser uma coisa maravilhosa, como qualquer poema bom.
Talvez você queira dizer isso: que hoje é mais difícil fazer um soneto bom do que fazer um poema experimental bom; talvez queira dizer que seja mais fácil. E talvez, no caso de poemas em geral, o mais fácil seja o mais difícil; e talvez o mais difícil seja o mais fácil. Mas semelhantes considerações não têm importância. Em poesia, só o resultado importa. Pode ser uma quadrinha, como as de Fernando Pessoa, pode ser uma canção de roda, pode ser um verso. Se for um bom poema é um bom poema, e pronto. Só se pode decidir caso a caso. A Shakespeare já se podia ter dito: “você vai usar uma forma velha, inventada três séculos atrás?”. A Drummond disseram efetivamente que ele não devia usar uma forma inventada oito séculos atrás. Ainda bem que ele se lixou para esse tipo de objeção. Estamos exatamente na mesma situação hoje.
Abraços.
Caros Antonio e Carlos Eduardo [um leitor que tb participou do papo], gostaria de dizer que não acho que fazer sonetos (ou quadras, ou sextilhas etc.) seja algo "errado". O que quero dizer é que, como acontece com tudo na vida, depois que nos acostumamos com determinadas coisas, estas tendem a nos "tocar" com menos intensidade. Aquela comidinha da mamãe, de que tanto gostamos, depois de um certo tempo, a gente passa a saber o gosto só de sentir o cheiro. Mesmo que a mamãe coloque um temperinho diferente, a gente vai gostar da comidinha principalmente por aquilo que já sabemos que gostamos. Obviamente, um poema não é um prato de macarronada, mas a fruição de um poema (ou de um quadro, de um filme etc.) é, sim, influenciada pelo grau de familiaridade que temos com certos aspectos estruturais utilizados para a configuração desse poema. Certos tipos de estrofação, de ritmo, de esquema rímico, certos jogos sonoros, todos esses recursos, que caracterizam há muito o discurso poético, são elementos familiares ao leitor de poesia, e essa familiaridade os torna elementos com certa carga de redundância. É claro também que nada impede que esses recursos sejam utilizados de forma surpreendente, como o fez um João Cabral, p.ex. Espero ter sido mais claro desta vez. Abraços
Antonio Cicero disse...
Caro Paulo,
entendo o que você está dizendo. Numa entrevista que dei para a Daniela Name, de O Globo, em 24/07/2002, eu dizia até algumas coisas semelhantes. Resolvi postá-la hoje, por causa da nossa discussão. Mas acho que a minha posição também ficou clara: sou tão contra os preconceitos em relação às formas fixas quanto contra os preconceitos em relação às formas experimentais.
Abraços.
Escrito por Paulo de Toledo às 03:03:40 PM
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bobagem 554: coleção "in natura"

Escrito por Paulo de Toledo às 11:35:03 AM
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